Faltando menos de três meses para a COP30, marcada para novembro em Belém (PA), a questão das hospedagens ainda é um dos principais entraves para o andamento da conferência. Até o momento, apenas 47 dos 196 países previstos confirmaram presença com estadia garantida, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (22).
Nos bastidores, o Brasil e a Organização das Nações Unidas (ONU) discutem a possibilidade de aumentar os subsídios destinados a países em desenvolvimento, que alegam não conseguir arcar com os altos preços praticados em Belém. Atualmente, o valor base disponibilizado pela ONU é de US$ 140 por dia (cerca de R$ 756), montante que cobre hospedagem e alimentação.
Na plataforma oficial do evento, entretanto, a diária mais barata encontrada é de US$ 350 (aproximadamente R$ 1,9 mil), valor muito acima do orçamento subsidiado. Diante desse cenário, a ONU sugeriu que o governo brasileiro complementasse os custos das delegações mais vulneráveis, mas a proposta foi recusada.
Segundo a Casa Civil, o Brasil já arca com despesas significativas da conferência e não tem condições de subsidiar países estrangeiros. A posição foi reforçada pela secretária executiva do órgão, Miriam Belchior, que defendeu que a própria ONU amplie os valores repassados:
“Em qualquer cidade-sede os custos seriam ainda maiores. Não estamos pedindo valores como os de Bonn, mas algo compatível ao que pagariam em São Paulo ou no Rio de Janeiro”, explicou.
Quem já confirmou presença
Segundo a organização, 39 países em desenvolvimento garantiram hospedagem por meio da plataforma do governo federal. Outros oito países negociaram diretamente com hotéis: Egito, Espanha, Portugal, República Democrática do Congo, Singapura, Arábia Saudita, Japão e Noruega.
O governo federal informou que montou uma força-tarefa técnica para entrar em contato com delegações que ainda não confirmaram estadia, com o objetivo de identificar dificuldades e buscar alternativas.
Oferta de quartos e preços altos
De acordo com o secretário extraordinário para a COP30, Valter Correia, há atualmente 33 mil quartos individuais disponíveis, número suficiente para atender às demandas da ONU, que solicitou 24 mil. O desafio, segundo ele, é alinhar esses espaços a valores compatíveis com o poder aquisitivo das delegações.
Grande parte das hospedagens em Belém está em imóveis particulares e não em hotéis, o que dificulta o controle de preços. O governo afirmou que pediu investigações sobre possíveis abusos de valores, mas ressaltou que, em um regime democrático, há limites para intervir no setor privado.
Tentativa de acordo frustrada
Ainda em fevereiro e março, o governo tentou firmar um termo de ajustamento de conduta (TAC) com a rede hoteleira, sugerindo que o preço máximo praticado fosse equivalente ao cobrado durante o Círio de Nazaré, tradicional evento religioso que eleva a demanda turística em Belém.
A proposta era de que os valores fossem cerca de três vezes o preço normal, considerado aceitável pelos organizadores. Contudo, segundo Miriam Belchior, o acordo não prosperou após resposta negativa da rede hoteleira.
Próximos passos
Com o tempo cada vez mais curto, a expectativa é de que a ONU reavalie os subsídios e que as negociações locais avancem para evitar prejuízos à participação de países pobres. O Brasil, por sua vez, estuda formas de buscar apoio alternativo, sem uso de recursos públicos, para viabilizar a presença de todas as delegações.
Com: G1